Mesa-Redonda
“A América Latina diante da Estratégia de Segurança dos Estados Unidos”
NOTA CONCEITUAL
Apresentação
Em novembro de 2025 e janeiro de 2026, os Estados Unidos lançaram dois documentos estratégicos (Estratégia de Segurança Nacional e Estratégia de Defesa Nacional), que definiram a América Latina e Caribe como área prioritária do governo dos Estados Unidos. Tal abordagem ficou conhecida como o “Corolário Trump” da Doutrina Monroe e tem por finalidade o estabelecimento da região como zona de influência norte-americana e a redução da presença de potências extrarregionais no Hemisfério Ocidental, com negação de acesso principalmente à China, mas também à Rússia. Tal postura é particularmente relevante diante das expressivas reservas de minerais críticos existentes no continente, sobretudo no Brasil. Para tanto, Washington tem recorrido à coerção comercial (i.e., guerras tarifárias) e ao uso da força (como no caso da Venezuela).
A mudança de postura dos Estados Unidos ocorre em paralelo ao fortalecimento da presença da China na região. Em dezembro de 2025, a China lançou o seu Terceiro Policy Paper sobre América Latina e Caribe (depois dos Papers de 2008 e de 2016). Ao identificar-se explicitamente como “membro do Sul Global”, sugere melhorar as suas relações com a América Latina e Caribe por meio da cooperação “de alta qualidade” em diversas áreas, como inovação tecnológica, infraestrutura, agricultura e outras como inclusive energia nuclear e recursos minerais. Na parte de segurança, defende a soberania e a integridade territorial e apoia a declaração de que a região da América Latina e Caribe se autoproclama como uma “zona de paz”, em uma tentativa de contraponto às atividades recentes dos Estados Unidos na Venezuela, Equador, Haiti e México.
Os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro comercial da região como um todo, ainda que tenham perdido espaço para a China nos últimos 25 anos. No entanto, ao se analisar alguns países individualmente, a exemplo de Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, verifica-se que a China se posiciona como o principal parceiro comercial desde o ano 2000.
Para o Brasil, em particular, a competição estratégica entre grandes potências na América do Sul, uma sub-região que tem sido explicitamente incluída como parte de seu “entorno estratégico” nos documentos de Defesa brasileiros (ver Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa, 2025), traz riscos acentuados que remetem ao estrangulamento do espaço político-diplomático do período da Guerra Fria, com potenciais impactos militares e estratégicos. Diante do exposto, da relação do Brasil com EUA e China e de sua posição como líder regional, sobretudo na América do Sul, que cenários se pode antever para os próximos 5-10 anos? Quais são os principais desafios para o Brasil e para a região sul-americana? Como se posicionar para não perder autonomia e para manter o protagonismo em seu entorno estratégico?
Objetivos gerais
- Aprofundar o debate sobre a atualização das diretrizes de segurança e defesa de grandes potências, buscando ampliar o entendimento sobre as visões de mundo e as percepções de ameaça. O evento busca contribuir com a compreensão das potencialidades e constrangimentos que estas políticas podem representar para a segurança nacional, a autonomia do Brasil e sua projeção internacional;
- Consolidar o papel da ECEME no fortalecimento da conexão entre a academia e os setores de Defesa e Diplomacia, e na promoção da agenda de manutenção da paz e da segurança internacional.
Objetivos específicos
- Promover um debate técnico e qualificado, com base em evidências e em análises fundamentadas, a fim de elaborar cenários prospectivos para orientar a pesquisa acadêmica e a tomada de decisão;
- Analisar os principais documentos estratégicos de segurança e defesa de grandes potências, identificando suas prioridades, percepções de ameaça e orientações de política externa e de defesa;
- Discutir como essas diretrizes moldam a dinâmica do sistema internacional contemporâneo;
- Avaliar as implicações dessas estratégias para o posicionamento internacional do Brasil, explorando oportunidades de cooperação, espaços de autonomia e possíveis pontos de fricção; e
- Refletir sobre as potencialidades e as restrições que esses cenários apresentam para a política externa e de defesa brasileira.
Metodologia
Trata-se de uma atividade em forma de “Mesa-Redonda”, realizada de maneira presencial, apenas para convidados, e sob a regra da Chatham House, segundo a qual as ideias podem circular livremente fora daquele ambiente, com a condição de que não haja atribuição de autoria.
Esta Mesa-Redonda está estruturada de maneira a incentivar o debate e a maximizar a integração de conhecimentos e experiências de militares e civis. Para tanto, a dinâmica afasta-se das exposições tradicionais e privilegia a interação entre todos os participantes, através de diálogos precedidos pela fala curta de indutores.
Os indutores foram selecionados de modo a agregar diferentes perspectivas, com os seguintes perfis: (i) militar; (ii) diplomata; (iii) think tank; (iv) especialista do IMM/ECEME; e (v) especialista externo. Como não são palestrantes, terão até 8 min para fazer considerações acerca do cenário atual e de um futuro próximo. As falas estão organizadas em Sessões (I e II) e serão seguidas de debates entre todos os interessados em aportar subsídios e reflexões, mediados por um especialista do IMM/ECEME.
Data/horário e local
- 11 de maio de 2026
- ECEME: Praça Gen Tibúrcio, 125 – Urca – Rio de Janeiro / RJ.
PROGRAMA
14h00-14h10 (10min) Abertura e apresentação da metodologia
14h10-14h30 (20min) Sessão I
- Gen Ex R1 Novaes (FGV)
- Cons Leonardo Abrantes (MRE)
14h30-15h10 (40min) Debate Aberto I – discussão mediada
15h10-15h30 (20min) Intervalo
15h30-16h00 (30min) Sessão II
- Dra Cláudia Pfeifer Cruz (SIPRI)
- Prof Danilo Marcondes de Souza Neto (EGN)
- Prof Hugo Bras Martins da Costa (IMM/ECEME)
16h00-16h50 (50min) Debate Aberto II – discussão mediada
16h50-17h00 (10min) Síntese e encerramento
Perguntas orientadoras (sugestões):
- Em que medida a priorização da região, pelos EUA, reflete a competição entre as grandes potências no nível global?
- Em que medida China afeta a hegemonia de Washington em áreas temáticas como infraestrutura e tecnologia (5G)?
- Os documentos estratégicos do Ministério da Defesa procuram preservar a América do Sul (e mesmo a América Latina) como “zona de paz”, livre de conflitos diretos entre Estados e livre de armas nucleares. Em que medida a competição entre as grandes potências globais pode/deve impactar essa realidade? O que o Brasil pode fazer diante dessa situação?
- Embora seja considerada uma “zona de paz”, a América Latina tem sofrido com altos índices de violência decorrentes de ameaças complexas e transnacionais, como o crime organizado, fluxos ilegais de bens, pessoais e capital, etc. Quais os impactos, nessa seara, da nova estratégia dos EUA para a região? Como o Brasil pode se posicionar diante disso?
- Como o Brasil deve lidar com a atual política dos EUA para a Argentina?
- A presença mais ostensiva dos EUA na região reduz ou aumenta a capacidade do Brasil de liderar processos no âmbito do CSNU via GRULAC?
